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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

põe a máscara, tira a máscara...


põe a máscara, tira a máscara,
põe a máscara, tira a máscara.
soltou o cabelo e olha-se ao espelho.
- sou eu ou a máscara?
já não se conhecia. ninguém naquela casa se preocupa com o que ela faz ou deixa de fazer, com o que sente ou deixa de sentir. quantas páginas da sua vida desmembradas em silêncio. sempre a viram sorrir.
mulher, mãe, amante, irmã e amiga!
desgastada, estende-se no leito e seu marido com brutalidade aperta-a contra o peito.
um esgar de dor é substituído por um sorriso.
pôs a máscara…a última do dia.

tira a máscara, põe a máscara,
tira a máscara, põe a máscara.
aproxima-se a hora do frente a frente na televisão
em directo. endireita o nó da gravata e ensaia várias expressões em frente ao espelho. a sua boca abre-se num sorriso aberto. sorrir agrada ao povo, mais do que se faz ou do que se promete. prometer não custa nada… até é de graça.
tem de vencer os adversários. passar a mensagem só com a sua imagem.
fazem-lhe um sinal. chegou a hora.
pela décima vez repete o ensaio sorri e pensa para si: está perfeita…esta sim…foi mesmo feita para mim!...

põe a máscara, tira a máscara,
põe a máscara, tira a máscara.
a estrada desta vida é um palco de teatro!
nela, alguns de nós somos actores,
alguns de nós somos palhaços.
tira a máscara, põe a máscara,
tira a máscara, põe a máscara.
proliferam pelo mundo inteiro, cordeiros com máscara de lobos e muitos mais lobos mascarados de cordeiros. sem máscara…existem biliões de capuchinhos vermelhos!.


Teresa Gonçalves
in: "Pleno Verbo - olhar interior”


Imagem: óleo de Miguel Barros

domingo, 14 de fevereiro de 2010

JASMIM!?


conheci uma catraia,
seu nome era jasmim.
vestia sempre de saia,
nunca vira outra assim.

seu olhar, lindo de ver.
seu corpo, ai, nem falar.
logo me fizeram tremer,
em ânsia louca d’amar.

meus olhos fitaram os dela,
foi o amor que estalou.
nunca vira coisa tão bela.
tremi, quando o olho me piscou.

daí a declarar-me,
foi coisa de um instante.
com o amor, a queimar-me,
abordei-a de rompante.

disse-lhe num grito incontido:
- amo-te! sou louco por ti !
ela segredou-me ao ouvido:
- oh, filho, eu sou um travesti!!!




        Foto de: eduardo roseira

eduardo roseira

sábado, 13 de fevereiro de 2010

LÁ VAI ARTUR




lá vai artur,
lá vai
com um rolo de serpentinas
na mão.
lá vai artur,
lá vai
vestindo a fantasia,
que é o desengano
por um dia,
da máscara que usa
ao longo do ano.

lá vai artur,
lá vai
com um molho de confetis
junto ao coração.
lá vai artur,
lá vai
a caminho do salão,
levando por vontade,
a de num dia só,
tirar desforra
de 364 de ilusão.

lá vai artur,
lá vai.
cerveja e mais cerveja,
afogando as acumuladas mágoas
da luta por um lugar ao Sol,
entre intrigas
e muita, muita inveja.

lá vai artur,
lá vai
dançando ao som
das notas musicais
da “banda realidade”.
dança.
requebra.
balança.
samba após samba
entre risos,
confetis,
serpentinas
e imensa alegria.

.................................................
...até que...
raios!
a “realidade” tocou
o seu último samba.
já é dia.
que castigo.
caramba!
.................................................

lá vai artur,
lá vai.
fantasia trocada.
agora trajando
fato,
gravata
e sapato a condizer,
p’ra ninguém dizer mal
nos dias e dias
deste imenso carnaval.

lá vai artur,
lá vai........



eduardo roseira


(imagem: sapo.pt)