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quinta-feira, 15 de março de 2012

NO RITMO DAS PALAVRAS


À Fernanda Cardoso


entrar no ritmo das palavras
e sequiosamente
absorvê-las.

ouvir atentamente
o cantar
sílaba a sílaba
dos versos que dizes.

entrar no ritmo das palavras
quando em tom ternura
falas amor
e em voz tremura
dizes horror.

perceber em tudo,
até no silêncio
das tuas deixas
a mensagem
que da tua voz
emana….

e permanecer
no ritmo das palavras…

Eduardo Roseira
Porto
15 de Março de 2012

Imagem: retirada com a devida vénia de:  http://poesianagaleria.blogspot.com

segunda-feira, 12 de março de 2012

O MENINO - ou a saudade não tem horário




ao meu filho Sérgio Filipe
à Cândida Nunes com carinho

um dia o menino…
(será sempre o nosso menino)
cansou-se de estar no retrato
e (como sempre) sorridente
saíu da moldura…

sem licença, nem passaporte
(que os bons não precisam de tal),
partiu a caminho da lua
e de nova sorte,
com breves paragens
em muitas estrelas.

na bagagem
levou milhões de sorrisos
para,  aos amigos do céu dar.
e de estrela em estrela
continua a sua viagem,
sempre a sorrisos distribuir.

meia volta
volta e meia,
ao olharmos para o céu,
mesmo com sol a raiar,
lá está ele sentado numa
estrela, a sorrir
e a acenar, dizendo:
“- olá, ando aqui a viajar…”
- para logo baixinho, acrescentar -
“…e a fazer cócegas às estrelas,
ensinando-as a sorrir…
a sorrir…
sorrir…
sorrir…”

  eduardo roseira
8 de março de 2012

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

NA PARTIDA DE ZECA AFONSO - (poema escrito há 25 anos)


não..não choro!
(não quero dar-lhes essa alegria.)
não…não escrevo com saudade!
(isso é para quem parte…
e tu continuas connosco!)

que fique de ti
a lembrança
de um zeca
num “bairro negro”
sentado numa “pedra filosofal”
à sombra de um embondeiro…
cantando para um “menino d’oiro”
ensinando-lhe a esperança
dos dias felizes,
com que sonhaste…
porque lutaste…
e nos cantaste…

na luta foste persistência
e coragem na resistência.
descansas agora a canseira
“à sombra (da tua) azinheira”,
cantando “eles comem tudo…”
(mas nós sabemos, que nem no “entrudo”,
eles comeram as papas na tua cabeça).
…e a luta, só agora começa!

não serás para nós
um símbolo qualquer.
serás, isso sim!
aos olhos de filhos, pais e avós.
o homem que sabe o que quer!
o companheiro que resiste até ao fim!

connosco estarás sempre presente!
serás, companheiro zeca, eternamente!...

    eduardo roseira
  Fanzeres/Gondomar
23 de fevereiro de 1987

Nota: Escrito poucos minutos após a notícia
da morte de José Afonso (23/fev/1987) e
lido à 01h10, para o programa “È de noite já
se vê”, da Rádio Comercial.


Imagem: Logotipo do Projecto Amigos Maiores que o Pensamento

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Eis aqui, o meu tributo...


Eis aqui, o meu tributo
ao contributo
feito generosamente
pelo nosso nobre povo
ao mui endividado
e cavacado presidente.

Nem as plurireformas
lhe chegam para as despesas
pois estas são tão amorfas
que não lhe aquecem
as incertezas.

Vai ter que ir comer
onde come qualquer indigente
e muito dignamente
dá uma sopa melhorada
ao nosso presidente.

Kim Berlusa

Imagem: google.com

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

põe a máscara, tira a máscara...


põe a máscara, tira a máscara,
põe a máscara, tira a máscara.
soltou o cabelo e olha-se ao espelho.
- sou eu ou a máscara?
já não se conhecia. ninguém naquela casa se preocupa com o que ela faz ou deixa de fazer, com o que sente ou deixa de sentir. quantas páginas da sua vida desmembradas em silêncio. sempre a viram sorrir.
mulher, mãe, amante, irmã e amiga!
desgastada, estende-se no leito e seu marido com brutalidade aperta-a contra o peito.
um esgar de dor é substituído por um sorriso.
pôs a máscara…a última do dia.

tira a máscara, põe a máscara,
tira a máscara, põe a máscara.
aproxima-se a hora do frente a frente na televisão
em directo. endireita o nó da gravata e ensaia várias expressões em frente ao espelho. a sua boca abre-se num sorriso aberto. sorrir agrada ao povo, mais do que se faz ou do que se promete. prometer não custa nada… até é de graça.
tem de vencer os adversários. passar a mensagem só com a sua imagem.
fazem-lhe um sinal. chegou a hora.
pela décima vez repete o ensaio sorri e pensa para si: está perfeita…esta sim…foi mesmo feita para mim!...

põe a máscara, tira a máscara,
põe a máscara, tira a máscara.
a estrada desta vida é um palco de teatro!
nela, alguns de nós somos actores,
alguns de nós somos palhaços.
tira a máscara, põe a máscara,
tira a máscara, põe a máscara.
proliferam pelo mundo inteiro, cordeiros com máscara de lobos e muitos mais lobos mascarados de cordeiros. sem máscara…existem biliões de capuchinhos vermelhos!.


Teresa Gonçalves
in: "Pleno Verbo - olhar interior”


Imagem: óleo de Miguel Barros