Domingo!
Mais um com o sol a derreter-me os ossos e a ter que gramar com a sogra, alérgica à areia da praia e sensível aos raios solares, sentada no chamado lugar do morto, do meu “BM”, último modelo.
No banco de trás, a boazona da oxigenoloura da minha mulher, como sempre grudada ao telemóvel “3G”, com afiada tesoura nos dentes a (re)contar a semana de fofocas do escritório, que frequenta com ganha…baton…, na empresa do seu pai, meu sogro, coitado!
Ao seu lado, a cadela caniche, toda cheia de laçarotes rosa, que a minha sogra comprou de prenda de anos à filha, e que insiste em dizer que é limpinha e que não me borra os estofos brancos do meu “BM” vermelho, que ficam cheios de pelos da bicha.
É esta a receita do pós-almoço, em cada domingo de sol primaveril e nos dias de verão, nos quais nem mesmo o ar condicionado do “BM” me safa da tosta dominical, passada no constante “para-arranca” deste torra gasolina, marginal fora, sem poder fumar para não irritar os pulmões de mãe e filha e da esquelética cadela.
Entretanto, é tempo de parar no mesmo parque de sempre, sair do “BM” e entrar na confeitaria do costume, sem ar condicionado. Ficar na esplanada está fora de questão, o vento pode escangalhar o penteado da minha esposa, e melhor, digo, pior, arrastar o postiço da velha, que já com quase noventa anos, insiste em usar o cabelo mais negro que o carvão.
É claro, que como não pode entrar na confeitaria, o raio da cadela ficou dentro do “BM”. Só espero que não me mije os estofos brancos, como no passado fim de semana.
Com tudo isto, continuo sem poder fumar, não é permitido fazê-lo dentro da confeitaria, onde o serviço é personalizadíssimo, ou não fossemos clientes de há séculos…
Sinceramente que já nem sei se o empregado de patilhas à “Zé Povinho”, é mudo? Nós também já nem pedimos nada, em poucos minutos vem à mesa acenando com a cabeça em jeito de boas tardes, lá nos serve o chá e três torradas sem manteiga, que em silêncio degustamos.
De volta ao “BM”, após ter deixado em cima da mesa, a nota para pagar a despesa, já com a habitual gorja incluída, imploro aos deuses para que o raio da “lulu” não me tenha mijado nos estofos.
Garanto-vos que se isso acontecer, embora sabendo que vai dar divórcio pela certa, pelo menos no que toca à ditadora da velha, mas é desta que faço da trela da bicha uma funda e atiro-a para o mar, e depois piro-me no meu rico “BM” vermelho de estofos brancos, para bem longe desta ameaça constante que são os meus domingos.
eduardo roseira











