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quinta-feira, 2 de julho de 2009

escritArtes - ESCLARECIMENTO



Antes de passar ao esclarecimento, começo por publicar, com a devida vénia e agradecendo a autorização do autor, o poema, de José Félix, que foi alvo de censura por parte da Administração do site “escritArtes” e que causou uma polémica que provocou uma expulsão (a do poeta Xavier Zarco) e alguns abandonos, a do próprio José Félix (a pedido, por não concordar com acto censório) e de outros, a par dos que, pelo menos mencionaram tal intenção:


Soneto (ecfrásico)sobre a imagem identificativa de "Helen de Rose", no escritArtes

Na vertente do olhar, Helen de Rose
Não cabe a escuta, o eco da tua voz
A messalina que tem essa pose
Descreve os lábios um desejo atroz.

Os olhos são assim a dupla dose
Que no sentido lúbrico são a foz
De Eros submetido à Hipnose
Transformando-a, a deusa, em seu algoz.

Que te sossegue o rosto, o teu cabelo
E as faces sejam lume nos meus lábios
Se houver a mais pequena transparência.

Porém, se não for atendido o apelo
Eu fico no devaneio dos sábios
A perscrutar a voz da minha urgência.




José Félix , In: ateiadaaranha.blogspot.com
e retirado por censura no www.escritArtes.com
__________________



ESCLARECIMENTO:

A minha presença no site “escritArtes”, surgiu a convite da senhora Goreti Dias, que para tal solicitou ao, aqui “residente” neste pátio, Domingos da Mota, ao sabê-lo meu amigo, o meu e-mail pessoal. Aceitei o convite e de forma alguma estou arrependido, pois não confundo os colectivos, com as atitudes pessoais. A foto identificativa que lá coloquei é mesmo minha, tal como o nome (Eduardo Roseira). Nunca me escondi e dando a cara e o nome, verdadeiros, nada tenho a esconder, ao mesmo tempo que, por tal, sou responsável por tudo o que por lá escrevi e venha a escrever.

Por lá andei, umas vezes mais assíduo do que outras, e sempre evitando ao máximo comentar poemas e mesmo até a agradecer comentários que me eram dirigidos.

Até que um dia, pensando eu que estava num lugar de verdadeira Poesia e como tal de Liberdade, respeito por ideias e expressões contrárias, motivado contra o acto de censura praticado pela anterior Administração ao poema de José Félix, acima publicado, por solidariedade com este e com o solidário e expulso Xavier Zarco, postei em 19 de Junho, o poema de minha autoria, que passo a publicar:

SIRVAM-SE!...
(a alguns censores e outros estupores)

minhas senhoras
e meus senhores.
porque esperam?
sirvam-se!
sirvam-se dela à vontade!
vá lá, continuem o banquete.
que a mesa posta
é fruto
da vossa maldade.

porque esperam?
continuem a reinação.
sirvam-se dela,
que é vossa!
pois embora seja filha
da imaginação que é minha.
ela é o vosso espelho.
porque é feita de...
...ca...qui...nha!...

vá lá!
façam dela serventia.
sirvam-se!
sirvam-se...da minha poesia!




eduardo roseira



Este meu poema, independentemente do seu pouco valor literário, veio a suscitar um renovar da polémica que envolveu o belíssimo poema (de descrição ecfrásica) de José Félix, que o levou a ser alvo de censura e à expulsão de Xavier Zarco, e de tal forma, que foi alvo de dois comentários (ver mais à frente), do senhor Dionísio Dinis, (antigo Administrador), em que me pedia para parar de insultar e de caluniar a senhora Goreti Dias, (antiga Administradora).

Eu estranhei, mas compreendi, que o senhor Dionísio Dinis, viesse em defesa da referida senhora, apesar de eu NUNCA a ela me ter referido, mas sim e sempre me ter dirigido à ADMINISTRAÇÃO no seu TODO, o qual é logicamente, constituído por um grupo de pessoas, com diferentes formas de pensar e ver, mas que no caso em questão, não souberam, inicialmente, lidar com a situação de “conflito” entre o José Félix e a “Helen de Rose”.

Quanto a mim a dividida Administração, devia ter, independentemente dos diferentes critérios de opinião, feito um comunicado no “escritArtes”, a esclarecer de imediato, tudo e todos, assumindo claramente as suas atitudes e evitando assim toda a polémica que surgiu.
Mas quem sou eu para estar aqui a “meter foice em seara … administrativa”…

Ainda relativamente ao comentário do senhor Dionísio Dinis era para não lhe dar resposta, aceitando o final do seu comentário: “…Assunto encerrado!”

Contudo fui “forçado” a mudar de opinião, isto porque entretanto, recebi uma mensagem pessoal, enviada para o meu e-mail e proveniente do e-mail da senhora Goreti Dias, com carácter insultuoso, mentiroso e ameaçador. (ver mais à frente).

Embora estupefacto, pelo facto de a referida senhora, não ter comentado no “escritArtes” o poema “Sirvam-se!...”, (apesar de, ao que me parece, ter delegado no senhor Dionísio Dinis), não estranhei, pois a senhora Goreti Dias, ao enviar-me um e-mail particular, pensava estar livre de dizer o que muito entendesse e de forma “escondida”, para assim continuar a aparecer no “seu” “escritArtes”, “angelicamente” aos olhos de quem a lê…

Ao usar este blog para acrescentar um pouco de clareza a esta polémica e aos ataques que me fazem, tal como o está a fazer o José Félix, no seu blog: ateiadaaranha.blogspot.com, faço-o essencialmente e, aqui, de forma mais elaborada, para não o fazer no “escritArtes”, devido ao respeito que me merecem a grande maioria dos que por lá escrevem e convivem.
Por outro lado, este blog, é aberto a todos os que quiserem comentar! E podem estar à vontade que não haverá censura, nem expulsões! Aqui os comentários são directamente publicados e nunca serão retirados.

A DUALIDADE DE CRITÉRIOS DOS MEMBROS DA EX(?) ADMINISTRAÇÃO DO ESCRITARTES!

Os membros da ex-Administração do “escritArtes” e muito particularmente o senhor Dionísio Dinis e a senhora Goreti Dias, pelos vistos, entre outros males, padecem do mal da dualidade de critérios, senão veja-se, ou seja, leia-se:

1 - Júlio Saraiva, Poeta e Jornalista brasileiro, em comentário ao poema “Lápis” de Domingos da Mota, refere o seguinte:

>“- parágrafo único: embora nem todo o filho da puta seja censor, todo o censor é filho da puta”

2 – Júlio Saraiva, no seu post “Visto de Saída”, refere-se à “expulsão e censura” dos poetas José Félix e Xavier Zarco.

3 – Domingos da Mota, Poeta de Gaia, Portugal, em comentário ao “Visto de Saída”, de Júlio Saraiva, a dado passo diz: “…e assim, uns por censura, outros por expulsão, ou em solidariedade….”

Estranhamente (ou talvez não), em nenhum destes post’s, ninguém da Administração (actual e antiga), nem pessoalmente o senhor Dinis e a senhora Dias, vieram comentar, dizendo que não tinha havido censura, expulsão, ou mesmo até (e especialmente) insurgirem-se contra o jogo de palavras usadas pelo Júlio Saraiva, “censor/filho da puta”.

No meu caso, e refiro-me ao meu poema “Sirvam-se!...”, que dedico (a alguns censores e outros estupores), o senhor Dinis, fez logo o primeiro comentário (não sei se sentindo-se com a palavra “censores” se com a “estupores”), tendo feito um segundo comentário após resposta minha ao dele e ao do Domingos da Mota, os quais, e sempre, com a intenção de me referir contra o acto censório tomado pela ADMINISTRAÇÃO no seu TODO e nunca a ninguém em particular, respondi dizendo que o meu poema “Sirvam-se!...” - era um recado a uma série de “… recalcados e prepotentes…com mente de merda…” , ao que o senhor Dinis, comenta desta forma e vindo em defesa da senhora Dias e muito ligeiramente da Administração da qual tinha feito parte:

“Prezado Roseira, aqui nesta casa não existe censura, nem a administração anterior, na pessoa de Goreti Dias, teve atitudes censórias ou coisa semelhante.
Haja vergonha na cara, para que o insulto e a calúnia à Goreti Dias - como administradora cessante, termine de vez. Porque sem fundamento e sem qualquer razão válida!

Assunto encerrado!”

______________________________________________

Do que eu mais gostei, foi do ditatorial “Assunto encerrado!”.

Se da minha parte, como já referi, iria dar o assunto por encerrado, ao receber o e-mail (particular) da senhora Dias, o qual transcrevo, porque sou Senhor de publicar toda a correspondência que me é dirigida, assim como quem não deve não teme, apenas lamentando que a senhora Dias, não tivesse tido coragem de me responder publicamente no “escritArtes”, da mesma forma e com as mesmas letras, como o fez para o meu e-mail particular. Deliciem-se que eu não comento e teor do mesmo:


---------- Forwarded message ----------
From: MG Dias
Date: 2009/6/23
Subject: escritartes
To: Eduardo Roseira

Se o púdica era piada para mim, vá chamar púdica a quem sabe... E saiba que merda é o que há na sua cabeça. Páre de insultar quem o recebeu bem naquela casa. E deixe-se de covardias. Conhece-me pessoalmente, venha dizer-mo na cara. Não se esconda que eu quando o encontrar pessoalmente lhe direi o que penso de si. Só não comentei o seu texto porque tenho o direito de não ter vontade de comentar merda.
Passe bem e não se esqueça que eu não sou a administradora. Sou a Goreti que um dia conheceu e com quem conviveu. E pediu que o convidassem para aqui. Você é como os cães que mordem em quem lhes estende a mão para lhes dar de comer. Páre para pensar e porte-se como um homem.
________________________________

CONCLUSÃO

Estranhamente, ou talvez não, o senhor Dinis, dá uma de “advogado” da senhora Dias, até parecendo que nunca houve Administração.
Por outro lado, fala de insulto e calúnia à referida senhora, mas que eu saiba, nunca “insultei” a referida senhora e se tive palavras mais duras foram, repito, contra a ADMINISTRAÇÃO no seu TODO.

Quanto ao facto de não ter existido “censura/atitudes censórias”, porque motivo não teve o senhor Dinis, o mesmo tipo de comentário, noutros poemas e comentários?
É caso para dizer que o senhor Dinis e a senhora Dias, devem sofrer dum mal que é conhecido por: “estrabismo conveniente”, tal a dualidade de critérios, aliás a senhora Dias, tem outro mal, que é o de confundir a liberdade de expressão e opinião, com a subserviência.

Quanto ao e-mail da senhora Dias, eu disse que não o comentava, pois ele fala por si.

Ainda relativamente ao meu poema “Sirvam-se!...”, quando o dedico (a alguns censores e outros estupores), fi-lo a pensar em TODOS os que praticam ou mandam praticar actos censórios, que os apoiam, mesmo que em silêncio. Além disso, não quis só referir ao “escritArtes” mas a todos os mais diversificados espaços em geral, onde se praticam tais más “artes”.


Logo após ter colocado este meu esclarecimento aqui no “ecos do meu pátio”, que está sempre aberto a TODOS, vou despedir-me do site “escritArtes” endereçando os interessados a visitarem este blog, para verem quem é quem no meio disto tudo.

Acresce ainda referir, que no que me diz respeito, não me importo que me chamem de estupor, desde que a tal me obriguem a ser, assumo-o e mais nada. Contudo sentir-me-ia, insultado se me chamassem de censor! Mas se me chamassem de “censor/filho da puta”, aí considerava-me gravemente insultado.

Mas pelos vistos há pessoas que se sentem insultadas quando as apelidam de censores; estupores, recalcados, e prepotentes com mente de merda e de Administração pudica, como eu os tratei e não me arrependo, contudo nem sequer se sentem beliscadas quando as tratam, mesmo que num brilhante jogo de palavras, de “censor/filho da puta”.

NOTA FINAL:

Não preciso de me intitular como defensor desta ou daquela causa, nem dizer que sofri esta ou aquela opressão, antes e até depois do 25 de Abril de 1974, mas ao longo da minha vida sempre me habituei a sofrer/pagar pelo facto de ser SOLIDÁRIO,e NUNCA me arrependi, daí que não me causa estranheza nenhuma as atitudes de alguns….

Termino citando Miguel Torga:

“Os poetas são como os faróis: dão chicotadas de luz à escuridão.”

… neste caso permitam-me, e Torga que me perdoe, ao acrescentar:

… lá pelos “e(u)scritArtes” existem uns quantos iluminados cuja visão anda ofuscada pelo brilho que não tem…

Eu cá pela minha parte (e seguindo a dica do Mestre Júlio Saraiva, poeta e Amigo lá do Brasil), cito outro Poeta brasileiro, Thiago de Mello, no titulo de um dos seus livros:

“Faz escuro, mas eu canto”

Um abraço fraterno e solidário.


eduardo roseira



quinta-feira, 14 de maio de 2009

Oração

















Oremos

como Patxi Andion nos ensinou:


Pai Povo que estás na Terra

Elevados sejam os teus homens

Traguemos o teu reino

E seja feita a tua vontade

Assim na terra como no mar

O pão-nosso de cada dia

Seja ganho hoje

E perdoa-nos por termos nascido

Não permitas que perdoemos os nossos medos

E faz-nos cair na tentação da Liberdade

E livra-nos do mal da Solidão

Amen



(tradução livre de minha autoria das palavras ditas/cantadas por Patxi Andion no trecho musical Padre Pueblo)


Imagem: pintura da p. 156 do meu diário

quinta-feira, 7 de maio de 2009

do sono

sono, muito sono
quantas horas? despertas
as madrugadas que não voltam
nem as asas de um qualquer desespero
teus nervos a sofrer um ataque
dissimulado
esperas, aguardas, submetes-te ao odor do frio



já tens medo da noite?
ao redor das colinas, nas sebes
o Outono sobe, rebelde
assistes ao parto do silêncio:
sei, algo morreu primeiro
do teu gemido já só sabes o gesto!



do sono perdeste a memória
o ranho do sonho explode longe
donde não podes ouvir sequer a sombra
arromba
os trajes com que vestes o mundo que não existe
escava
fundo, finda, funda alma
cansa
cala
teu silêncio



não ouves
um bater de folhas
a bofetada do vento
a rábula do tempo
incerto devoras
as horas
vislumbras as raízes da madrugada
sei, algo nasceu ao mesmo tempo
que a morte do sono
teu



estranha fome a tua
tens a vaga
porque desejas o mar?



luís nogueira
7 de Maio de 2009

sexta-feira, 1 de maio de 2009

O TIJOLO


















A

Vinícius de Moraes


anda um homem

feito besta

a dar cabo do coirão.

tijolo em cima

de tijolo

constrói mais em prédio

para o patrão.

enquanto o operário

se alimenta

com barro e pó.

o patrão usurário

enche o bucho

a lagosta e pão-de-ló.

dizer sim

a tudo o que

quer o patrão

é sua sina.

sem nunca

poder dizer não

aos que lhe

negam o pão.

e tijolo

após tijolo,

o operário prossegue

a sua construção.

lutando por

permanecer de pé,

pegando a vida

pelos cornos.

até que pelas costas,

um tiro lhe dão.

e porque deixa,

de tijolos fazer,

oferecem-lhe

como prémio

um espaço

entre meia dúzia

de tábuas.

dão-lhe enfim

descanso!

deixa de ser

escravo,

porque hirto,

gélido

e sem qualquer

préstimo

para tijolos fazer.

agora,

resta-lhe aguardar

pelo patrão

numa terra onde,

(porque iguais são)

lado a lado

ficarão eternamente

a fazer…tijolo.

eduardo roseira

1/Maio/ 2001

VNGaia



sábado, 25 de abril de 2009

Ecos do meu Pátio: 25 DE ABRIL SEMPRE, FASCISMO NUNCA MAIS

Ecos do meu Pátio: 25 DE ABRIL SEMPRE, FASCISMO NUNCA MAIS

25 DE ABRIL SEMPRE, FASCISMO NUNCA MAIS

O autor do texto em actuação
(imagem de Júlia Meireles)

Olha Portugal, estas palavras de ordem vão ouvir-se de novo dentro de algumas horas, um pouco por todo o teu território. A voz do Zeca – sempre presente –, irá recordar-te que “Grândola Vila Morena”, mais do que uma canção foi o sonho feito realidade, onde na “Terra da fraternidade o Povo é quem mais ordena, dentro de ti, ó cidade”. Mas isto foi há 35 anos, já foi há 35 anos… Ainda não tinha passado muito tempo – cerca de dois anos, apenas –, e já um amigo do outro lado do mar – o Chico Buarque, lembras-te? – te escrevia, dizendo: “ Foi bonita a festa, pá, fiquei contente, ainda guardo renitente um velho cravo para mim”. E avisou-te, “ Já murcharam tua festa, pá, mas certamente, esqueceram uma semente nalgum canto de jardim.” Eu acredito que sim, eu quero acreditar que sim, que nalgum cantinho teu, resistente a tanta agressão do betão armado, a tanto fogo posto e outras irracionalidades criminosas, surgirá uma flor nova para te dignificar… Mas porquê tanto tempo para germinar? 35 anos não chegam? Terás de esperar que passem 48 outra vez, para levantares a cabeça e gritares “ Aqui estou de novo e orgulho-me de quem sou?”

Eu sei que não é fácil entenderes esta espécie de esquizofrenia que te atormenta os dias. Ora alegre, ora triste. Seduziram-te com cantos de sereia e, tu que não resistes a uma bela melodia deixaste-te embarcar no conto do vigário. Até te convenceram que o 25 de Novembro era para defender as liberdades do 25 de Abril, como se a luz da primavera precisa-se do nevoeiro do Outono para ser mais clara. Como é possível tanta distracção? Depois, disseram-te que ias ser europeu e tu acreditaste… Mas que porra tinhas sido tu até então?

Sabes Portugal, eu sei que não é fácil lidar com tanta confusão… Uma parte de ti a celebrar Abril pensando em Novembro, oficial, formal, hipocritamente com cravos na lapela a assistir a desfiles militares, com os seus discursos para surdos, as suas condecorações, as suas riquezas e corrupções, as suas amantes finas e suas televisões, as suas mordomias, manias e tias, e primos, e tios, e secretários, e directores, e banqueiros, e gestores, e ministros, e, e, e…

A outra parte, a das pessoas reais, a gente que vive e sofre, a que aspira depois de 35 anos que se cumpra Abril, a que recorda os três “Ds” do movimento que naquela madrugada saiu à rua trocando as balas pelos cravos oferecidos pelas mulheres de Lisboa, o Capitão Salgueiro Maia e tantos outros que disseram “Nós não queremos o Poder, mas com o Povo exigimos descolonizar, democratizar, desenvolver”. Descolonizou-se e, não se nega que desenvolvimento, tem havido. E a democracia onde anda? Que me dizes Portugal? Consideras-te democrático com os teus 2 milhões de pobres? Consideras-te democrático com a grande maioria da tua população a mal - viver com salários de Miséria? Consideras-te democrático com as centenas de milhares de crianças que não comem quando as escolas estão fechadas? Consideras-te democrático com centenas de milhar de idosos no ocaso da vida sem saberem se amanhã têm pão para meter na boca? Consideras-te democrático desinvestindo na saúde e na educação para enterrares o dinheiro em estádios de futebol? Consideras-te democrático com as tuas prisões cheias de Pobres enquanto os banqueiros corruptos, os políticos corruptos, os gestores corruptos, os empresários ricos corruptos e tantos outros criminosos de colarinho branco se passeiam impávidos e serenos pelas artérias das tuas cidades? Consideras-te democrático sabendo-te o país da Europa com mais desigualdades?
Não Portugal, a democracia de Abril não tem nada a ver com isto. Só assim se entende que dentro de umas horas o teu mais alto representante oficial – o Presidente da República - , vá condecorar e promover a Major General um dos militares reconhecidamente inimigos da Revolução – o Coronel Jaime Neves, mesmo contra o parecer do Movimento 25 de Abril, que considera que “Ao comemorarem o 35º aniversário do 25 de Abril com um acto desta natureza, os detentores do poder, sejam os membros dos órgãos de soberania, sejam os chefes militares, não se mostraram dignos dos cargos que ocupam.”

Mas Portugal, tu sabes também que dentro de umas horas os teatros estarão cheios, as avenidas, as ruas e as praças estarão cheias, as associações cívicas e culturais estarão cheias de Povo, para recordar, para recuperar e para celebrar Abril em festa, mas também em luta, com o que tens de melhor: os teus poetas, os teus músicos, os teus artistas e toda esta gente que te trata por tu, porque te quer.

25 de Abril, sempre.

Fernando Fernandes


(Nota: Esta carta foi enviada pelo meu bom amigo e companheiro de imensas cumplicidades, ao fim da tarde de 24 de Abril, não resisti a dizer-lhe: eu assino por baixo! - eduardo roseira)

O DIA PRIMEIRO

A Fernando Peixoto




foi a 25,
o dia primeiro.
um cravo
flor de esperança,
anunciou a primavera,
nas mãos de um capitão
chamado abril.

foi a 25,
o dia primeiro.
soltavam-se as grilhetas
duma aprisionada nação,
que sofria mil agonias.
a liberdade tocou as trombetas.
ouviu-se uma grândola/canção.
abriu-se a porta a novos dias.

foi a 25,
o dia primeiro.
o medo para bem longe fugiu,
as vozes vieram às janelas
e bem alto
em uníssono gritaram:
- liberdade!
- liberdade!

hoje,
trago dentro de mim
um velho cravo
que guardei desde
esse que
foi a 25,
o dia primeiro.

eduardo roseira

quinta-feira, 23 de abril de 2009

POEMA POVO

“Ser poeta é escolher as palavras que o povo merece!”

J. C. Ary dos Santos



ser palavra
na pena
do poeta

ser escolha
do poema
sempre novo

ser voz
que nunca
emudece

dar ao povo
as palavras
que merece.



eduardo roseira

quinta-feira, 16 de abril de 2009

O QUILÓMETRO DO MEDO

Foto: Carlos Matos Cunha

os homens
não se medem
aos palmos…
dizem!

e o medo…
quanto mede
o medo?
alguém o saberá dizer?

os que me podiam dizer,
já não os oiço mais.
o sousa
o nico
o nando
e outros mais
que por lá
perderem a juventude
e o ser
no meio da mata
e da luta

foi no 17 -
o quilómetro do medo
na curva da morte
naquela picada
filha da puta.


eduardo roseira
VNGaia
16/Abril/09

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Poema dedicado ao Domingos da Mota

Ao Domingos da Mota


do poema
a construção
da palavra
a melodia
da frase
o suor
do todo
a filosofia

no labor
a rima cantada
a imagem (de)cantada
do suor do poema

a imagem
torna ave a palavra
que esvoaça
sobre o poema
na construção
da paisagem papel
onde a palavra sol(idário)
ilumina
a obra


eduardo roseira
VNGaia
13/Abril/09

domingo, 12 de abril de 2009

Albano Martins na Biblioteca Municipal de Gaia no Dia Mundial da Poesia - 2009

O animador da palavra eduardo roseira entrega
ao poeta Albano Martins (ao centro), uma folha A4, com um
poema deste impresso e um borrão azul pintado, depois de o ter lido.
O Convidado estava ladeado pelo poeta gaiense Fernando Morais e pela
Directora da Biblioteca Municipal de Gaia, Dr.ª Cristina Margaride.


Albano Martins foi o poeta convidado da Tertúlia da Biblioteca Municipal de Gaia, comemorativa do Dia Mundial da Poesia, em 21 de Março de 2009, ontem (11/Abril/2009) recebi em minha casa os artistas e poetas Júlia Meireles e Luís Nogueira, para mais uma agradável noite de convívio, a dado passo o Luís foi para o computador e escreveu....:

Uma Sessão de Poesia

Daqui vêem-se as margens do rio dispersando saliva nos rumores da Ribeira e do Cais, trocando luzes entre os lados opostos, prateando as águas supostamente d’ouro; daqui é aquela ponte arqueada por onde circula vida, dum lado para o outro, dos centros para os lados; daqui ouvem-se viaturas sonolentas, buzinas silenciosas quanto baste; daqui absorve-se o espaço, entre duas goladas de cerveja gelada, um naco de bolo, dois espasmos de fumo pigarreado. É uma daquelas noites iguais a tantas outras e por isso mesmo, daquelas que não se perdem; nesta doce calmaria recorda-se.
A memória lembra-se do Dia Mundial da Poesia – ainda se juntam as pessoas por causa disso!- que por acaso foi uma noite na Biblioteca Municipal de Vila Nova de Gaia. De memória sabemos que após entrarmos, à esquerda em frente à direita, sala 6: filas de cadeiras com gente, flores e telas pintadas de alguns dos presentes, uma mesa para receber com honra um grande poeta, Albano Martins. Escolha apropriada pela inquestionável grandeza da figura poética radicada em Gaia.
Ouvimos o poeta falar da poesia, de toda e da sua. Não cansou, aprendemos. Depois, as justas homenagens ao ilustre escritor tradutor poeta professor, lidas poesias e poemas, um violino. Quem fazia de árbitro disse: -Intervalo!
Já sabeis o caminho, regresso à entrada para um Porto de honra, de amena cavaqueira, reconhecimentos – ao tempo que certas pessoas não se reencontravam! - vai um biscoito, um sumo, um cálice, que vais ler a seguir? Sei lá!
À esquerda em frente à direita, sala 6: segunda parte, cantemos, recitemos, levantam-se uns, escondem-se outros, uns falam muito alto, outros muito baixo, alguns…não falam; acontece. Palmas, esperamos que para a poesia, sorrisos, surpresas, todas as sessões de poesia são assim; poucas ficam verdadeiramente na alma, muitas se perdem na prosa. Esta de que nos recordamos entre dois goles de cerveja apaixonados pelas margens do rio escorre suavemente, teima em resistir: é a homenagem que Albano Martins merece.
Haverá quem se tenha contentado com um abraço do poeta; existem ainda os que abraçaram a poesia do ilustre convidado. Esses, apenas esses, estiveram verdadeiramente lá e por isso mesmo conseguirão compreender esta ponte este rio estas margens que se avistam…daqui.

Luís Nogueira

Dia Mundial da Poesia - 2009 - Biblioteca Municipal de Gaia

Na foto o animador da palavra, eduardo roseira a dizer o seguinte poema de Albano Martins:


Borrão azul
na brancura da página:
o poema.

In:"Com as Flores no Sagueiro", 1995

Foto de Júlia Meireles

sábado, 11 de abril de 2009

Poema de João de Melo



SINAIS DOS TEMPOS

Uma pressa com duas vendas nos olhos
Duas mãos fantasmáticas perdidas no ar
Uma infiltração de água na coluna
Um riso estúpido bloqueando as narinas
Um pêndulo amnésico entre as pernas


João de Melo (Angola)
In: “Auto-retrato”

(desenho de: eduardo roseira)

segunda-feira, 6 de abril de 2009

DIA NACIONAL DOS MOINHOS - 7 de Abril


“Partiram-me os búzios, deixei de cantar.
Tiraram-me os vitrais, deixei de ver.
Rasgaram-me as velas, deixei de andar.
Tiraram-me as forças, deixei de moer!”


(Quadra escrita num moinho em Porto de Mós)
Foto de: Eduardo Roseira (Pai)

domingo, 5 de abril de 2009

UM POEMA DE JULIO SARAIVA



















BREVE RAIO X DO POETA

para Domingos da Mota e Eduardo Roseira, numa roda d'amigos - consagro






o poeta não é o samba
o poeta não é o fado
o poeta não é a zoeira
o poeta não é o enfado
o poeta não é a verdade
o poeta é foda
o poeta é fato
pé de sapato esquecido
resto de dicionário
palavra fora de uso
o poeta não faz seu destino
e nem fará a revolução
o poeta é um filho da puta
o poeta é um serviçal
o poeta é uma sentinela
o poeta não é porra nenhuma
o poeta é um sacripanta
violador de meninas
tocador de violoncelo numa
sexta-feira de chumbo qualquer
o poeta é a puta que me pariu
por detrás dos muros da morte
o poeta não é bravo e nem forte
nem um mar de velas pandas
o poeta não é bandeira
o poeta não é pessoa
é só sujeitinho à toa
que cai no meio da rua
o poeta é um viado
pecado capital da palavra
é um animal sem sorriso
o poeta é o funcionário público
que diz pois-não-obrigado
o poeta subverte à ordem
o poeta cospe no chão
o poeta caga na rússia
e declara amor ao japão
o poeta adivinha a lua
o poeta vai ao comício
o poeta foge do hospício
o poeta é bicho de circo
o poeta morre de enfarto
aos pés da primeira mulher
sem que o jornal se apoquente
o poeta...
de uma vez por todas
sejamos sinceros
: o poeta ontem ia bem - obrigado




Júlio Saraiva (Brasil)
In: http://www.escritartes.com/


Fotografia extraida com a devida vénia do site: escritartes

quarta-feira, 1 de abril de 2009

O DOMADOR DE PALAVRAS



MÁRIO VIEGAS, ACTOR DE GÉNIO E CORAGEM



Hoje quero falar-vos de uma pessoa que a brincar, a brincar, levou a vida a sério, daí que lhe dedique este poema de Brecht, antes de falar nele:

Há homens que lutam um dia e são bons
Há outros que lutam um ano e são melhores
Há outros que lutam muitos anos e são muito bons
Mas há os que lutam toda a vida.
Esses são imprescindíveis.

Há 13 anos, dia um de Abril, fazia madrugada e um tipo que tinha nascido em Santarém, em 1948, resolveu pregar-nos uma partida própria do Primeiro de Abril.

Para alguns, ele era um tipo assim a atirar para o “esquisito”, pois sempre foi muito ligado a fazer CENAS; PEÇAS e outras coisas que tais, às vezes, bem, às vezes até fazia FITAS.

Porque não era gajo para andar só, não esteve com meias medidas e “arranjou” uma..., duas..., três COMPANHIAS.

Concerteza que não foi pelas suas CENAS, FITAS; PEÇAS ou mesmo até pelas COMPANHIAS; que estes anos após a sua morte, poucos, muito poucos, são os que dele se lembram, ou será que se sentiram magoados com um gaijo que resolveu morrer no dia das mentiras, se calhar é verdade. Foi por isso?!...

Era um de Abril, passaram 13 anos que muito ao seu jeito de “bom/mau da fita”, o actor Mário Viegas, resolveu pregar-nos uma partida de Abril e rumou com destino a outras paragens, sem se despedir cá da malta.

Mário Viegas, actor, declamador, Homem de coragem, fundou três COMPANHIAS de Teatro; no palco interpretou, entre outros, Beckett, Tchekov, Beckett, Pirandello, Beckett, sempre Beckett, se a memória não me atraiçoa, pelo menos sete vezes o seu adorável Beckett. No cinema fez a sua estreia com “O Funeral do Patrão”, de Eduardo geada; filmou com Manoel de oliveira, mas o seu grande sucesso foi mesmo com o filme de Fonseca e Costa, “Kilas , o Mau da Fita”.

Fez também muita rádio e televisão. E porque não existem actualmente, deixo aqui a alusão aos seus programas de poesia, poesia que amou, disse e divulgou, tanto a de estrangeiros, como principalmente a de poetas nacionais e para além de a divulgar, ensinou-a.

Mário Viegas disse um dia: “Dos poemas, dos escritores, ficam os livros editados, as palavras escritas; dos actores fica a memória, mas essa morre com as pessoas!”

Para terminar, as próximas palavras são dirigidas a ele:

- Mário, agora que andas a fazer CENAS noutro lado, espero que me ouças bem:

- Olha, deixa-te de merdas! Fica sabendo que ainda restam por cá muitos gajos com memória, que não se esquecem de ti e dizem mesmo, que quando fizerem parte do teu novo “círculo eleitoral”, vão votar em ti, assim tu te candidates! Um abraço e até um dia destes!...

- Ah! Já me esquecia, não gastes o “GIN TÓNICO” todo, guarda algum para nós.


Imaginemos agora a ironia da voz e dos gestos, se este poema de Brecht fosse dito pelo Mário Viegas.

FÁBULA

O lobo foi ter
Com a galinha
E disse-lhe:

“Devíamos conhecer-nos
melhor para vivermos
com amor e confiança.”

A galinha achou bem
e foi com o lobo.
Foi por isso que as suas
penas ficaram espalhadas
por todo o lado.

Foi na madrugada do dia das mentiras: - o actor Mário Viegas morria na unidade de infecto-contagiosos do Hospital de Santa Maria, em Lisboa.
António Mário Lopes Pereira Viegas era natural de Santarém, onde nasceu em 10 de Novembro de 1948.

No teatro, no cinema, na televisão e na rádio, Mário Viegas era considerado um dos melhores – terá sido mesmo o melhor – actores portugueses da sua geração. A prová-lo estão os projectos multi-disciplinares em que se envolveu.

No teatro fundou três companhias, interpretando alguns dos mais importantes papéis teatrais (Baal, Hamm, Krapp, Vladimir, Wang; encenou peças de Eduardo de Filippo, Bergman, Tchekov, Strindberg, Pirandello, Peter Shaffer e Beckett – sempre e inevitavelmente Beckett!
Viegas adorava – e revia-se – tanto, no estilo dramático do autor de “À espera de Godot” que chegou a encenar oito peças deste Prémio Nobel.

No cinema, fez uma dezena de meia de filmes. Estreando-se com “O funeral do patrão”, de Eduardo Geada, mas os seus maiores sucessos foram “Kilas, o mau da fita”, de Fonseca e costa, “A divina comédia”, de manoel de Oliveira e “Afirma Pereira”, de Roberto Faenza, onde contracenou com Marcelo Mastroiani, também já desaparecido.

Na televisão e na rádio, deixou uma marca importante, especialmente através dos seus programas dedicados à poesia.

Amante da poesia, Mário Viegas gravou cerca de 200 poemas em 14 discos, onde o podemos ouvir dizer Luís de Camões, Cesário Verde, Camilo Pessanha, Almada Negreiros, Fernando Pessoa, Jorge de Sena, Alexandre O’Neill, Pablo Neruda e muitos outros.
Tendo assumido a responsabilidade de divulgar poetas e humoristas (tais como Mário-Henrique Leiria, Luíz Pacheco e Pedro Oom), Viegas viajou, dando espectáculos em Moçambique, Macau, Brasil, Espanha, Bélgica e Holanda.

Um episódio caricato marca o ano da Revolução (1974): - Filipe La Féria e Mário Viegas decidem levar à cena a peça “Eva Péron”, de Copi, no teatro da Feira da Ladra. Durante os ensaios, Viegas é chamado à Embaixada da Argentina, onde lhe disseram que este país ameaçava cancelar as exportações de vaca e de milho, caso a representação se concretizasse. “Por motivos de interesse nacional”, a estreia de “Eva” foi cancelada e a companhia dissolveu-se.

A sua obra foi alicerçada no seu imenso amor pela cultura, o que lhe granjeou diversos prémios de prestígio e popularidade da imprensa. Em 1993, a Câmara Municipal de Santarém atribuiu-lhe a Medalha de Mérito da Cidade; em 1994 o então Presidente da República, Mário Soares, ordenou-o Comendador da Ordem do Infante D. Henrique, enquanto a Câmara Municipal de Lisboa, deu o seu nome, ainda em vida, à sala-estúdio do Teatro S. Luíz.

Apesar de tudo, passados treze anos sobre a morte de um “actor de absoluto génio”, poucos tem sido os que fazem por recordá-lo. Até porque, como disse um dia Viegas: “Dos poemas, dos escritores, ficam os livros editados, as palavras escritas; dos actores fica a memória, mas essa morre com as pessoas!”

Mário Viegas, mais do que actor e declamador, foi um verdadeiro “Domador de Palavras”!


eduardo roseira

terça-feira, 31 de março de 2009

memória


memória

as manhãs tinham um hálito agradável, um odor a verde e a feno, terra húmida mas serena, impávidos insectos num repouso de folhas e caules e teimosas raízes que subiam árvores e muros e paredes onde viçosos musgos escondiam experiências, instintos e vidas trazidas por ventos brancos e alimentadas por chuvas sem branco. terra revolta, à margem dos canteiros floridos, feridas com sulcos de carruagens, rodas e flores, ouro de sol, prata de fios-d'-água, beijos de saudades, beijos-em-flor, pedras nuas expostas à luz, dispostas a tudo.
do mar se via a terra.
subíamos a ladeira descalça do monte, crepitando inocentes passadas rumo a um previsto e desejado desconhecido. haviam esperanças nas meninas e nos olhos, esbugalhados calhaus, saltitões quietos, palavras sem nome, gritos de silêncio em canto alto; desunidos ramos secos, pasmo espasmo de mãos agarradas à terra.

da terra se via o mar.
ondas, espuma, areia nos cabelos, seiva negra de tão pura sujidade. navios -quem os inventou?- traziam maresias com memórias de nevoeiros descobertos, gelos derretidos em fogo, quentes frios arrepios; infinita saliva.
arremessados paus, galhos de velas desfeitas galgavam margens de asfalto, botes de raiva afundavam águas onde nenhuma caravela nadara, nenhum incauto marinheiro guerreara; paraíso do peixe, sombra do risco, subterfúgio da alma. gaivotas a picar a pele do sonho, vistes?
sim, também nasciam ondas de cravos vermelhos de insuspeitas fontes, promessas de ventos em mudança, um riso sorriso nas palmas das mãos, armas floridas carregando costas nuas, bandeiras desfraldando a liberdade do vento; um rio de gente a caminho.

e o rio unia terra e mar.

***

vieram carros do combate, sem combater o futuro, arrasado o passado, vieram tantos e tantas, anónimas vozes e gritavam, expeliam o silêncio dos corajosos, repeliam a força à força de palavras como estas: que nojo vos turvara a mente?
que carinho nos transformou em gente?

ai!, quem souber desenhar almas que conte! que digam a verdade mentindo, mintam dizendo, enganem a memória, enterrem a história; o mundo vive para além disso. embrulhem as alegres lágrimas em sacos dos vossos lixos; rompidos, incessantemente rompidos, desaguarão os limites da imagem: recordação, tu nunca mentes!
que recordação vos magoou, ó gentes?
voltaram todos do monte, acorreram das serras e dos vales dos vossos sonhos, vieram voando em núvens de desejo, trouxeram a morte e o beijo, carregaram o espinho e a rosa, acordaram o trovão e a corda, redes, pescadores, rezes, fomes a cheirar ao pão; amassaram os caminhos, corpos pequeninos e passarinhos, abutres também: se a presa é oferecida que mais vos falta para a festa?

e depois do adeus, da solene despedida do morto anunciado, partíamos, ai!, suprema alegria voar o barro, dissipar o catarro, esticar o torpor, matar, sim, matar o ditador!

que morte vos mudou, gente?
sem medos, povos das selvas montes serras rios mares, para além do crime, dizei-me:
que falso carinho vos devolveu a crença?

***

nómadas do esquecimento.
sobre as águas do inferno lavais as lembranças e escolheis o fogo do paraíso para festejar o esquecimento com que suportais a vida: até quando? homéricos poemas à laia de discurso, palavreado belo do engano, mística de cómodo olhar, esbracejar da lassidão; como é breve o tempo que há-de vir, como inutilizastes a memória!
sedentários do nada!
acordávamos felizes. então, sempre que o mar nos trazia um naufrágio de esperanças, acorriamos às areias em busca do remoinho; agora, destruída a caixa de Pandora, afundais-vos em terra solta e das ondas fizestes sepulcros. e com cruzes desenhais madeira.
carpinteiros do artifício!

esquecestes as horas da boa-espera, as madrugadas a fio, as auroras da navalha. esquecestes igualmente as praias e as rochas e as maresias; seguis caranguejos a caminho da solidão. Narcisos sem rumo, espelhos falsificados, anúncios da desgraça.
construtores da armadilha!
longe, muito longe do que é aqui, resistem prados e versos: nem as rimas vos salvarão!
que fizestes das palavras?


***

arautos dizem esquecei! lembrai-vos sempre disso!
recuperai memória, criai história, fazei acontecer! tornai ao âmago das coisas, alimentai-vos do sopro, reconstrua-se a carne: não vos falo do verbo e muito menos do adjectivo, Vaidade! Falo-vos da oração completa: voltai a desenhar as letras...


LN, 30 Março 2009

segunda-feira, 30 de março de 2009

PARAÍSO

aflito
quase a a
f
o
g
a
r - m
e...

pedi boleia a uma solitária

ILHA

es...ten...deu..-..me

uma lingua de areia...

salvou-me
e ficamos os dois
bem abraçadinhos
na nossa praia.

eduardo roseira
30/Março/2009
VNGaia

Tertúlia POESIS

O Grupo Cultural Poesis, em parceria com a Casa da Cultura de Paranhos, no Porto, vão levar a efeito a partir do próximo mês de Maio, às suas "Tertúlias Poesis", nos segundos Sábados de cada mês, às 21 horas e 30 minutos.
Com esta parceria, estão de regresso e para ficar, agora num novo espaço, as tertúlias a que a Poesis nos habituou, sempre em forma de conversa despretensiosa e sem tabús, a par de intervenções poéticas e polémicas, onde o aceitar das diferenças é ponto de honra.
A primeira Tertúlia Poesis, vai ter lugar no dia 9 de Maio, na Casa da Cultura de Paranhos, no Porto, no Largo do campo Lindo, 9.
Registe-se que esta é uma das muitas iniciativas que o Grupo Cultural Poesis, vai levar a efeito, para comemorar os seus 20 anos de existência.

A propósito dos 200 anos das Invasões Francesas

A HISTÓRIA DO “MOLETE”
Duzentos anos de vida.



Apresentado por inteiro ou aos “nacos”, todos nós o comemos e faz parte dos nossos hábitos alimentares diários, com mais ou menos sal, é o pão.
Há uma variedade imensa de tipos, uma das quais é o “papo-seco”, o qual cá por terras do Porto, é mais conhecido como “molete”.
Quem já não disse e ouviu dizer:
- “Ó Mãiee, dá-m’um molete” Tou co’fome!” – e como resposta – “Ó rapaz, bai à padaria e pede pra t’abiarem meia dúzia de moletes!”
Apesar de ser um vulgar tipo de pão, o molete pode orgulhar-se de ser o mais conhecido, embora a maior parte das pessoas que o comem, não saiba a sua história e o porquê de assim se chamar.
Como é do conhecimento geral, o Concelho de Valongo, no Porto, foi e é uma zona muito importante de panificação e moagem, como são exemplo disso os moinhos de água do Rio Ferreira, ainda existentes, e alguns recuperados. Para além disso, temos o “Pão de Valongo”, vulgarmente conhecido como Regueifa.
Aquando das Invasões Francesas, em 1809, as tropas invasoras estiveram estacionadas em Valongo, tendo nessa altura havido falta de cereais, pelo que houve necessidade de se fazer racionamento do pão.
A forma adoptada foi a de diminuir ao peso, reduzindo o tamanho do pão para metade.
Essa medida foi tomada pelo General francês que comandava as tropas invasoras, que dava pelo nome de Moulet.
Daí o povo ter baptizado aquele pão com o nome de “molete”, aproveitando o nome do General que “decretou” a diminuição ao peso e ao tamanho do pão, para dessa forma poder alimentar os seus soldados.
E é esta a história dum tipo de pão que é conhecido por papo seco, mas que cá pelo Porto, embora já a cair em desuso, lhe chamam “molete”.

eduardo roseira

quarta-feira, 25 de março de 2009

uma velha casa...

A Filomena Fonseca
autora do livro de poesia
"Os Degraus da Casa"

uma velha casa
um degrau que rangia
as suas memórias.

era a poesia
a passar!

eduardo roseira
JF Bonfim-Porto
21-Março-2009

quarta-feira, 18 de março de 2009

VESTÍGIOS DA MADRUGADA

nasce um novo dia.
o velho sol mostra
de novo os raios.
aos poucos a sua luz
vai revelando
o que da noite resta.

numa outrora parede alva
nasceu um multicolor
e disforme grafite
que reclama
ingenuamente,
paz amor.

de cá para lá,
uma puta de mini-saia,
passeia a celulite.
o tempo ronda as seis
e ainda continua no engate,
a ver se esfola mais um pastor.

nos passeios
junto a montras ricas,
vêem-se vómitos/álcool
espalhados pelo chão.
aqui e mais além,
pequenos montículos
de merda de cão,
garrafas partidas,
latas calcadas,
pedaços de papel e cartão,
seringas,
restos de pratas e limão.

um sem abrigo
engana o sono num canto.
um ébrio de gatas,
em hálito/fel
lança um enorme
arroto de desencanto.

mais além,
cabisbaixo,
um tipo com cara
de foda mal dada,
regressa a casa
ao encontro da sua
querida mulher,
como se não fosse nada...
aos poucos,
a cidade nasce
para mais um dia
de vida apressada.
das estações.
das paragens.
das posturas.
surgem pessoas...
pessoas...
muitas pessoas!...
que passam sem dar conta
dos vestígios da madrugada.



eduardo roseira
VNGaia
11/Agosto/2001

quinta-feira, 12 de março de 2009

TRINTA ANOS É TÃO POUCO TEMPO!

Fotos: eduardo roseira





“Os olhos parados, estáticos, do poeta
contemplam extasiados a arte de ver tanta coisa em tão pouco espaço!”


Fernando Peixoto


Foi com esta ideia/frase que nasceu um poema de Fernando Peixoto, tinha ele 21 anos, estava em terras de Angola, a cumprir o “Serviço Militar Obrigatório”, e a “colaborar, também obrigatoriamente” numa Guerra Colonial, contra a qual era e se batia.
Quando, um dia, de passagem pela cidade de Luanda, a refrescar-se com uma cerveja “Cuca”, bem geladinha, na esplanada da “Paris-Versalhes”, numa mesa próximo da sua, se sentou uma pessoa que ele sempre admirou, quer pela postura como, muito especialmente, pela arte. Era nem mais, nem menos o Actor Rui de Carvalho, em digressão por terras portuguesa da então, África Ultramarina.
Tal como inicia o seu poema, o jovem Fernando, ficou com “Os olhos parados,…” e com certeza com todos os seus movimentos “…estáticos,…”. A sua primeira reacção foi a de se abeirar do Grande Actor Rui de Carvalho e “meter” conversa dizendo-lhe de toda a sua admiração e se possível falar da Arte que os unia, mas não o fez, não fosse o Rui de Carvalho, pensar que era mais um a pedir um autógrafo….Não, o Peixoto, queria muito mais do que isso e na incerteza da reacção do “Senhor Teatro”, quedou-se por continuar sentado no seu lugar e dizer ao papel tudo o que sentia nesse momento ao estar tão próximo do “monstro” do palco, e transmitiu o que os seus “…olhos…” embora “…parados…”, lhe “…deram força às mãos que escreveram poemas.” como este:

AO ACTOR RUI DE CARVALHO


Os olhos parados, estáticos, do poeta
contemplam extasiados a arte de ver tanta coisa em tão pouco espaço!

Às vezes não vê a consciência do drama
e transforma em comédia as lágrimas alheias
num sorriso amargo de secar a boca
porque as lágrimas às vezes também cansam
se a chorar correm os dias na cabeça do poeta.

Ah! Isto de querer ver para além da noite sem estrelas
traz-nos aos dentes uma raiva surda
de trincar o ar, de prender o vento,…

Os olhos parados, estáticos, do poeta,
contemplam extasiados a arte de ver tanta coisa em tão pouco espaço
e sente na alma o dever latente de sorrir ao menos
para quem nas tábuas ocupa o espaço duma Terra inteira
e sente nos braços o desejo intenso de abraçar o homem
que entrega ao poeta a imagem fiel do ignoto mundo.

E os olhos parados, estáticos, do poeta,
deram força às mãos que escreveram poemas.


Fernando Peixoto
22 de Junho de 1969
Angola, Luanda,
Esplanada da “Paris-Versalhes”


Mas o destino, cruza as vidas de uma forma tal, que passados trinta anos, em Outubro de 1999, considerado como o Ano Internacional do Idoso, juntou lado a lado, duas figuras públicas: - O Alto Comissário Nacional para a Terceira Idade e o então Presidente da Junta de Santa Marinha, freguesia de Vila Nova de Gaia. O primeiro era o Actor Rui de Carvalho e o Autarca era o Fernando Peixoto, que ao recebê-lo no Salão Nobre da Junta, num dos primeiros dias de Outubro, contou esta história, (como só ele o sabia fazer), leu e fez a oferta do poema.
Afinal, trinta anos é tão pouco tempo!

eduardo roseira








sexta-feira, 6 de março de 2009

Recado

.......
......
... e se um qualquer dia
entenderem que é entulho,
toda a minha poesia.
dela façam papel de embrulho.

eduardo roseira
VNGaia
14/Dez/1996

INTIMIDADES

é nesta letra indecisa
que cruzo lentamente,
nó a nó,
oceanos de imaginário.

faço do papel o meu mar.
da caneta o meu navio.
ao leme – eu!
o meu destino
é ida sem volta.

através dos meus olhos/vigias,
o meu viver traça rumos
guiados pelo meu coração/bússola.

minhas poucas virtudes
são mar chão.
meus defeitos muitos,
mar encapelado.
vão construindo
as marés do meu existir.

a minha mente
é um oceanário de ideias,
que controla
os meus modos/ondas
e minhas tempestades/manias.

… e assim vou navegando
os mares das minhas
intimidades.


eduardo roseira
VNGaia
5/Maio/1998

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009


No passado dia 20 de Fevereiro de 2009, morria aos 80 anos, o Amigo e Poeta Fernando Pinto Ribeiro.

O nosso Pátio presta-lhe uma singela homenagem publicando um poema da sua autoria e um poema de eduardo roseira, publicado no livro “o sorriso de deus”, e dedicado a Fernando Pinto Ribeiro.

Fica aqui a informação, de que o “lavra…Boletim de Poesia”, elaborou na internet, um espaço dedicado unicamente ao Homem e Poeta Fernando Pinto Ribeiro, realçando a sua dedicada ligação àquele projecto cultural, literário e editorial, bem assim como possa ser um "lugar da sua poesia. Esse espaço pode ser visitado em: fernandopintoribeiro.no.comunidades.net
UM POEMA DE Fernando Pinto Ribeiro




SALMO

a João Bigotte Chorão.

Estou morto.
Mas a vida
lambe a minha pele em labaredas.
Sou noite.
Mas o dia
põe-me nos lábios papoilas
e coroa-me de espigas o cabelo.
Ceguei.
Mas a luz
vem poisar-me sobre as pálpebras
outras tantas borboletas inquietas.
Não oiço.
Mas o eco do silêncio
canta o hino imenso que eu não posso.
Não respiro.
Mas aspiro o alento
da maresia no vento.
Não sinto.
Mas pressinto: a minha alma arde
e uma chaga floriu na minha carne.
Não choro.
Mas tremem estrelas cadentes
nas lágrimas pendentes que sustenho.
Não canto.
Mas sopro nuvens
no pó que levanto.
Não ando.
Mas todo o meu espírito
vadia sem folga nem descanso.
Não durmo.
Hiberno: verme esvurmo limo e lama
no fosso em que me enfurno
aninho e faço a cama.
Não amo.
Sobre a seta quebrada no meu peito
raiva uma fonte de sangue
a incendiar a sede a incinerar a fome
dos homens dos bichos das florestas.
Não sonho.
Mas a fé
faz da esperança e da saudade
sentinelas do sepulcro
onde vivo o meu coração jaz
pisado por cavalos em tumulto.
Estou morto.
Mas o sol explode
a luz esplende
em plena primavera
neste corpo
que me prende
e me suspende
absorto.

Fernando Pinto Ribeiro

Um poema de eduardo roseira:

FADO NOSSO…NOSSO FADO…

a Fernando Pinto Ribeiro



fado nosso…
nosso fado…

triste sina
deste canto.
por vezes alegria
sorriso
encanto,
outras ironia
castigo
e pranto.

fado nosso…
nosso fado…
triste sina
com desdém.
dores alheias
muito nossas
nossas teias
sem ninguém.

fado nosso…
nosso fado…
triste sina
deste canto.
que cantando
destino
e morte
vai rimando
pena
com sorte.

fado nosso…
nosso fado…
triste rima
mar vazio.
vida que canto
e choro
mesmo até
quando me rio.


eduardo roseira
In: osorrisodedeus.blogspot.com

Nota:

Fotografia de Carlos Matos Cunha/lavra...

Ex-Libris de Fernando Pinto Ribeiro, desenhado por J. Leitão Batista/lavra...

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

A PROPÓSITO DE...Sexta-Feira 13

Os supersticiosos vão andar hoje numa autêntica roda viva, rezando a tudo quanto é “santinho” e cheiinhos de amuletos contra o mau olhado, é que hoje é Sexta-Feira 13!
“Número de azar” ou de “mau auguro” entre os povos de influência cristã, (há inclusivamente hotéis nos quais não existe o quarto número 13), contudo noutras culturas o 13 é um número mágico.
Para os católicos evoca o número de pessoas que estavam à mesa com Cristo na Última Ceia; para os mexicanos primitivos, cujos deuses eram 13 cabras, trata-se sobretudo de um número sagrado; para os chineses, os seus pagodes tem 13 budas e os numerologistas assinalam ainda, que a águia do escudo norte-americano tem 13 penas em cada asa e que os primeiros estados que constituíram o país eram 13.
Antes do cristianismo, na Macedónia antiga, o 13 era já considerado como um “número fatal”, em memória do Rei Filipe, assassinado durante um cortejo militar quando se encontrava ao lado das 12 divindades protectoras.
Segundo as regras da numerologia, uma ciência muito antiga que estuda a simbologia e a conjugação dos “números fundamentais”: - O 10, que representa um limite estático e o 3, que designa um princípio dinâmico e activo, isto segundo o antropólogo Jorge Fragoso.
Aliás o “Apocalipse” é o 13.º livro da “Bíblia”.
Em Portugal, a superstição em torno da Sexta-Feira 13, tem também um fundo religioso, relacionado com a Paixão de Cristo e continua a ser… “um dia especial”… para os crentes.
De acordo com a tradição, à Sexta-Feira os católicos deverão “fazer uma obra penitencial” que pode ir desde a prática de jejum até à leitura da “Bíblia”.
À luz da numerologia, porém a Sexta-Feira, evoca em primeiro lugar o número 6, considerado “imperfeito”.
Ainda, segundo Jorge Fragoso, “ a obra da Criação implicou 7 dias” e o Anti-Cristo de que fala o “Apocalipse”, “ o ser mais imperfeito” chama-se “666”.
Hoje, entre outros, quem não anda a sorrir nesta Sexta-Feira 13, são os que tem computador. É que independentemente de serem ou não supersticiosos, este é um dia indesejável, tudo por causa do virús informático que ataca à Sexta-Feira 13, e que assusta muita boa gente.
Pode mesmo dizer-se que este é um dia terrível para os empresários, técnicos e todos os utilizadores de computadores, colocando-os com as mãos na cabeça, pois caso o “raio” do vírus resolva atacar, pode estragar o trabalho de dias, semanas ou mesmo até anos…
É que o “dito cujo” está programado para reactivar automaticamente, sempre que uma Sexta-Feira coincide com o dia 13.
O vírus foi detectado pela primeira vez em 1987 em Jerusalém.
Em Portugal, surgiu dois anos depois, mais concretamente em 13 de Outubro de 1989, altura em que “saboreou” os programas de “software” de muitos computadores portugueses.
Agora, á cautela, há muitas pessoas que optam por nestas Sextas-Feiras 13, não ligar os seus computadores. Outros há, que mudam o calendário aos seus equipamentos, para fintarem o “maroto”, pois mesmo com anti-virús instalado, nada garante os cem por cento de eficácia.
O virús espalha-se normalmente, através de cópias piratas de programas de jogos de computador.
Daí que devemos tomar duas seguintes medidas:
- 1.ª – Dizer não aos piratas!
- 2.ª – Aconselhar, vivamente, o nosso chefe a deixar-nos ir mais cedo para o fim-de-semana, já que o aparelho deve por precaução, estar desligado!
Quanto a mim e no que diz respeito ao facto de ser Sexta-Feira 13, vou já preencher e registar o boletim do Totobola, na esperança de ter o “azar” (ha!... há!...ha!...) de ser o único apostador com 13 resultados.

Bom fim-de-semana!


Eduardo Roseira

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

POEMA PARA JOSÉ GOMES FERREIRA

A
José Gomes Ferreira

cavalguei horizontes
no dorso de uma nuvem,
desafiando trovões/tempestades
sem tirar vantagem.

descobri o presente…
vivi o futuro…
acariciei o passado…

de murmúrio em murmúrio,
em cada viagem,
meu rumo – o arco-íris
de imaginada miragem.

eduardo roseira
8/Nov/2006
VNGaia

sábado, 7 de fevereiro de 2009

EM RITMOS DE SETE...

Foto - SapoFotos(ondas do mar)

À
Isabel Pires de Carvalho,
um poema “com sabor ao cheiro de manteiga de cacau”.


…uma a uma…
pequenas ondas
na areia enroladas
tecem com espuma
a orla praia.

…uma a uma…
em ritmos de sete
constroem marés
de bilros
num emaranhado
d’emoções.

…uma a uma…
ora sete pequenas
ornando areias
limo
troncos
conchinhas…
ora sete maiores
que rudeza mar
desfazem
sonhos…
ilusões…

…uma a uma…
em ritmos de sete…
mais sete…
…uma a uma…
em ritmos de sete…
em ritmos de sete…
em ritmos de sete…

eduardo roseira
29-Junho-2008
Auto Viação do Tâmega
Porto-Penafiel-Chaves
…ou a vantagem de não ter viatura própria

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Homenagem/Evocação ao Fernando Peixoto em 31 de Janeiro de 2009

Estive no passado dia 31 de Janeiro de 2009, na dita “Noite de Evocação” ao Poeta e Homem de Teatro Dr. Fernando Peixoto, que teve lugar na Tuna Musical de Santa Marinha, que co-organizou a referida homenagem, juntamente com os alunos do Curso Superior de Teatro da ESAP – Escola Superior Artística do Porto e do Grupo de Teatro Arado.

A noite gélida e invernosa foi aquecida por uma sala repleta de amigos, colegas, alunos, colaboradores, vizinhos e gente anónima que ali se quiseram deslocar para recordar com os seus familiares, o Homem, Fernando Peixoto, em todas as suas vertentes.

A ocasião serviu de oportunidade para o presidente da Câmara de Vila Nova de Gaia, Dr. Filipe Menezes, anunciar que nas Comemorações (?) do dia 25 de Abril, será atribuída a título póstumo a Medalha de Ouro da Cidade ao Dr. Fernando Peixoto.

Sei de pessoas ligadas por diversos laços, alguns bem íntimos, ao Fernando Peixoto, que não se quiseram deslocar à referida “Evocação”, por se terem apercebido antecipadamente que a ocasião iria ser “aproveitada” para tal “encenação”.
Do que conheço do Fernando Peixoto, lá no íntimo da sua “vaidade” teria ficado satisfeito, até porque ele e muitos dos que o rodearam, sem NUNCA lhe virarem as costas, sabíamos que de tal era merecedor, só que em vida…
Sei também que o Fernando dispensava algumas pessoas de se verem “obrigadas” a tal “sacrifício”, ou seja, o de assistirem ao “aproveitamento” da homenagem...

Mas voltando ao que se passou na mesma, à parte a boa vontade de alguns dos participantes, valeu ouvir o Fernando Peixoto na entrevista em vídeo feita por uma aluna da ESAP e muito especialmente através das vozes de Eduardo Roseira, que leu dois excertos do livro “A Linguagem do Silêncio” e do Fernando Fernandes que disse e interpretou o poema “Dádiva”, os quais de seguida passo a citar:


“Dedicatória do livro “A Linguagem do Silêncio”, de Fernando Peixoto, Ciclo da Guerra Colonial, 1984.

Ao Fernando Mota
Ao Rui Carita
Ao Papiniano Carlos

Por uma razão ou por outra, a vós devo muita da seiva com que enchi as artérias latejantes das palavras.

Do chão do medo me ergui para olhar o sol que obliquava sobre o rio estilhaçado de lágrimas dos peixes ausentes, e no lodo que povoa o cais fronteiro à minha casa, espojei meu tronco, meus membros, num regresso necessário e urgente ao lodo de onde vim.

Hoje estou aqui, agreste e vertical, para dizer que estou vivo. E solidário.

Amanhã, e todos os dias que hão-de vestir o futuro, estarei aqui, enquanto o povo continuar o longo êxodo para a terra prometida.


Ouve, amigo: vou partir agora. O sol já se espreguiça sobre o leito granítico da Serra do Pilar. Não posso perder tempo. A cidade está à minha espera e estou ansioso por lançar-me nos braços musculados deste Povo que é o meu. Amanhã de manhã te contarei do sorriso com que me esperam ali, na Praça da Liberdade.

Agosto de 1984”


DÁDIVA

Não me peçam palavras melífluas
quando apenas a sonora gargalhada
me irrompe do peito como pedra lascada
nem sorrisinhos de catálogo de moda
quando o mijar numa esquina da cidade
me sabe a poesia e cheira a vida
não me peçam gestos simétricos e convencionais
quando um cosmopolítico manguito
abarca toda a náusea de Bordallo a Pasolini
não me peçam nunca aquilo que vós quereis
porque eu dou apenas aquilo que possuo
e que é esta raiva enorme de cuspir
esta feroz vontade de gritar
e o sexo amplo enorme e predisposto
a fertilizar o amor em todas as esquinas
peçam-me a mim
e nada mais
e dar-vos-ei tudo o que possuo
o suor o sangue o sexo
EU
e comigo dar-vos-ei o homem primitivo
o que recusa a civilização do marketing
o que caga nas gravatas dos public-relations
mas que aposta no futuro ÚNICO do
CRESCEI E MULTIPLICAI-VOS

Sim peçam-me a vida
Tomai e comei
ESTE É O MEU CORPO



Fernando Peixoto
In: “Diz Ilusão 2 – Cadernos de Poesia”,
NERP – Núcleo de Escritores e Recitadores Portugueses,
Barreiro - 1987



Nota de Rodapé: Fiquei com a sensação que estas duas últimas intervenções tiveram lugar à margem do evento, mas seja como for, valeram bem o esforço que tive de fazer para ter “aguentado” até ao final.

Resta-me dizer ao Amigo Fernando, um obrigado por tudo o que nos deste, legaste e que vai perdurar, se puderes perdoa-nos se esta “Evocação” pecou por não ser a verdadeira e desinteressada Homenagem que tu mereces.

Abraço forte do Lúcio S. O. Jesus (Porto)

Dois poemas dedicados a Fernando Peixoto

Poema de Homenagem a Fernando Peixoto

Já pouco nos resta
além do corpo oco
a não ser a volátil
compreensão
de sentirmos o nada,
enlear-se num todo
em volta de nós.

A morte escoou-te
a vida
mas permaneces
bem vivo, na
invisível presença
que de ti, emana.
Porque a verdade
é translúcida
na Poesia que
escreveste
no Teatro que
fizeste.

É de ti que falo
é por ti que grito.
À cósmica nave
do infinito!

Kim Berlusa - Porto - 31-Janeiro-2009


Plágio de "Tempo"... (1)
Ao Dr. Fernando Peixoto


Não tenho mais tempo para viver!
Não tenho mais tempo, para viver a correr atrás do tempo.
Nem para viver a correr, a fugir do tempo.

Não consegui agarrar o tempo;
O tempo, correu mais que eu...

Acabou-se o tempo de viver.
Acabou-se o tempo de sofrer.

Chegou o tempo, de descansar no tempo!...


Ana Maria Roseira - Santa Marinha/Vila Nova de Gaia - 3-Outubro-2008

(1) O presente poema foi inspirado no poema "Tempo" da mesma autora, o qual foi escrito e apresentado no "Primeiro Encontro de Escritores e Artistas de Santa Marinha", organizado pela Junta de Freguesia, aquando
o Dr. Fernando Peixoto era Presidente da mesma. O poema em questão, pode ser lido no blog: colardeestrelasdeanamroseira.blogspot.com

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Comentário do "Global" de 20/1/09


Não resisto a publicar com a devida vénia o comentário publicado no jornal "Global" de 20 de Janeiro de 2009, dia da Tomada de Posse de Barack Obama, assinado pela Subdirectora do "Diário de Notícias", a Jornalista Catarina Carvalho.


COMENTÁRIO:

"A ESPERANÇA DO DIA, NUMA FOTO.

A foto é a de Obama sentado nos ombros do avô, à beira mar do Havai. Entre as coxas finas do neto de três anos, a cabeça do avô. Um riso de gargalhada dos dois que nos distrai do promenor: a pele branca do avô e a do neto, negra. Uma foto de esperança para os que hoje assistem à tomada de posse do novo presidente dos EUA. É símbolo de tudo o que Obama aprendeu na vida. O menino negro abandonado pelo pai, vivendo numa família branca, depois de ter passado por um país de religião e língua diferentes. Menino que se fez homem percebendo essas diferenças., contemporizando, questionando o mundo, cheio de dúvidas. Aquilo de que estamos a precisar, depois de oito anos de certezas e maniqueísmos que nos levaram onde estamos hoje."

Comentário de Catarina Carvalho, in: "Global", de 20/1/2009

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

O PRIMEIRO DIA DE UMA NOVA ERA


Poucos sabiam que Barack Obama, o novo presidente dos Estados Unidos da América, se dedicara no passado à poesia. Estes dois poemas, Pop (Papá) e Underground (subterrâneo) foram publicados quando ele estudava na universidade em 1981. Na altura tinha 19 anos. O jornal em causa era o Feast. Os poemas foram divulgados nos EUA pelo jornal The New Yorker, que faz aqui uma crítica à poesia de Barack Obama.
O blog Casa dos Poetas publicou os poemas traduzidos para português com versões de Tiago Nené, que com a devida vénia, transpomos aqui para o nosso Pátio, precisamente logo após o discurso da Tomada de Posse do quadragéssimo quarto Presidente do Estados Unidos da América.


PAPÁ

Recostado na sua cadeira, uma cadeira larga e quebrada
E polvilhada com cinzas,
O papá passa os canais, toma outro
Cálice de Seagrams, simples, e pergunta
O que fazer comigo, um rapaz novo e verde
Que nem considera a
Falta de sentido do mundo, desde
Que as coisas se me tornaram fáceis.
Fixo os olhos na sua cara, um olhar
Que lhe afasta a testa;
Estou certo que ele não tem consciência dos seus
Negros olhos de água, estes que
Balançam em diferentes direcções,
E dos seus lentos e indesejados espasmos
Que demoram a desaparecer.
Oiço, aceno abertamente até tocar na sua pálida,
Camisola bege, gritando,
Gritando nos seus ouvidos, pendurados
Com lóbulos pesados; mas ele está a contar
A sua piada, e então pergunto-lhe por que
Parece tão infeliz, ao que me responde….
Mas eu não quero mais a porcaria da resposta, porque
Passou todo o tempo, e por baixo da
Minha cadeira eu tiro o espelho que guardei;
Eu rio-me, rio-me à gargalhada, o sangue escorre
Da sua cara até à minha, e cresce
Um pequeno lugar no meu cérebro, algo
Que deverá ser extirpado, como se fosse um
Caroço de melancia, com os
Dois dedos.
O papá toma outro cálice, simples,
Repara na pequena mancha de âmbar
Nos seus calções, igual à que eu tenho nos meus, e
Faz-me cheirar do seu cheiro, e este vem
Apenas de mim; ele passa os canais, recita um poema antigo
Que escreveu antes de a sua mãe falecer,
Levanta-se, grita, e pede
Um abraço, assim que eu encolho, com os meus
Braços mal conseguindo dar a volta
ao seu grosso e oleoso pescoço, e às suas costas largas; porque
Eu vejo a minha cara emoldurada na
Armação preta dos óculos do papá,
E descubro que ele também se ri.

SUBTERRÂNEO

Grutas debaixo de água
Cheias de macacos
Comendo figos.
Aproximo-me dos figos
Que os macacos
Comem, eles mastigam.
Os macacos guincham, mal
Lhes vejo os dentes, eles dançam,
Lançam-se à água que escorre,
Velhos, as peles secas,
Reflectem a luz no azul.


Barack Obama, presidente dos Estados Unidos.
(tradução de Tiago Nené)